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Rolha de cortiça: uma tradição em extinção

Publicado em: 14 Novembro, 2013 por Winetag B.

Quantas vezes você já abriu uma garrafa de vinho, cheirou e analisou a rolha antes de começar a degustação e pensou: “Ah! Esse vinho parece estar ótimo”? É fácil descartá-la logo em seguida, dedicando toda a atenção a atração principal, mas você já se perguntou como aquela rolha foi feita e tudo o que precisa acontecer para que ela esteja ali protegendo o seu vinho de cada dia ou o seu Porto 10 anos? A rolha tradicional já é tão intrínseca a degustação do vinho que nós achamos que ela continuará assim para sempre. Mas isso pode não ser verdade.

Afinal, por que a cortiça?

Quase tão famosa quando o líquido que protege, a rolha é o produto mais popular feito da casca do sobreiro: a cortiça. Responsável por 50% da produção mundial de cortiça, Portugal nomeou o material de “Petróleo da pátria”, acompanhando sua também importante tradição no vinho. No país, inclusive, os sobreiros são protegidos por lei, só podendo ser cortados em caso de velhice e improdutividade. A Espanha é o segundo maior produtor, com 30% da produção mundial, seguida de Marrocos, Argélia, Tunísia, Itália e França.

A importância da cortiça está em suas características físicas. É flexível, elástica, densa e um ótimo isolante térmico, sendo usada até na produção de armamentos. Quanto mais espessa e menos poros tiver o material, maior será a qualidade da rolha, com maior resistência ao oxigênio e durabilidade ao longo dos anos para os nossos queridos vinhos de guarda.

Sobreiros com marcações de ano entre extração

Tudo conspira contra

Porém, toda essa qualidade vem com um preço, e especialistas dizem que a rolha de cortiça será reservada apenas aos vinhos mais caros e de guarda daqui a alguns anos. Hoje o mercado de vinhos cresce mais do que a produção de cortiça. São poucos os países que extraem o material e eles enfrentam um outro grande problema que a natureza impôs: o sobreiro leva 25 longos anos para produzir uma casca grossa o suficiente para extração. E não é só isso. A primeira extração, chamada de cortiça virgem ou cortiça macho, é de baixa qualidade. Dura e quebradiça, não serve para a produção de rolha, e geralmente é triturada e utilizada para outros fins.

Apenas 9 anos depois é que o sobreiro dará origem a uma nova casca, essa sim com qualidade necessária para utilização no vinho, e daí o ciclo irá se repetindo. A boa notícia depois dessa jornada toda é que a cortiça pode ser extraída durante muitas décadas. Algumas árvores conseguem passar dos 200 anos de vida, originando matéria-prima para várias gerações. Mas, como falamos, o mercado de vinhos cresce a cada ano, e por conta do longo tempo necessário para a extração da cortiça, o material tem se tornado cada vez mais escasso e mais caro.

Não é por acaso que as dificuldades de crescimento da produção da cortiça afetam, principalmente, o mercado de vinhos. Segundo a APCOR, Associação Portuguesa de Cortiça, o setor rolheiro é responsável por 70% das exportações do material. E é por isso que hoje vemos uma proliferação cada vez maior de materiais e embalagens alternativas.

Uma tradição cada vez mais rara

Vinhos bag-in-box têm se tornado uma opção cada vez mais popular para rótulos baratos e de rápido consumo, e rolhas de material sintético podem ser encontradas em muitos vinhos. Outra opção que ganhou força em vários países nos últimos anos e parece ser o principal substituto da cortiça é a rolha de rosca. As vantagens e desvantagens sobre a cortiça ainda são muito discutidas, e grande parte da polêmica está na nostalgia e tradição que a rolha tradicional sempre conferiu ao vinho, mas é inegável a força que a rosca ganhou no mercado.

Junte tudo isso a ação de organizações ambientais que condenam a exploração do sobreiro Com tudo isso, acabamos por ter um panorama bastante desfavorável para a disponibilidade de cortiça no mundo para a produção de rolhas. Ainda é cedo para dizer, mas com o avanço da tecnologia e todos esses outros fatores caminhando juntos em busca de alternativas, além da própria dificuldade natural da produção, podemos estar olhando para um futuro onde cheirar a rolha ou até mesmo abrir um vinho com o tradicional saca-rolhas será costume reservado a poucos e caros rótulos.

ATUALIZAÇÃO: Ao contrário do que mencionamos no artigo original, existe um esforço de organizações ambientais, em parceria com produtores, para o plantio e disseminaçao dos sobreiros para a produção da cortiça. Como bem apontou nossa leitora Margarida, o sobreiro é responsável por um ecossistema de grande valor chamado Montado. De forma simples, podemos caracterizar o Montado como a floresta de Sobreiros. Este ecossistema é bastante delicado e de grande importância para a biodiversidade, além de apresentar um alto valor sócio-econômico. Além do valor financeiro óbvio devido a extração da cortiça, o Montado mantém um equilíbrio singular no ciclo da água, qualidade do solo e na produção de oxigênio.

Por isso, organizações não-governamentais como a WWF (World Wide Fund for Nature) criaram parceria com a APCOR e criaram o Green Heart of Cork, programa que visa a conservação do montado contribuindo para a viabilidade e sustentabilidade económica da sua actividade e, ao mesmo tempo, para a conservação da água e da biodiversidade da região. Você pode saber mais sobre o Green Heart of Cork acessando http://www.wwf.pt/o_que_fazemos/green_heart_of_cork2/
Para mais informações sobre a WWF, acesse http://www.wwf.org.br/.

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Comentários na WineTag

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Alvaro Cezar G. disse há 2219 dias às 16:59h:

Muito bom falar da cortiça

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Margarida disse há 2218 dias às 15:44h:

Um contributo: o sobreiro existe num ecossistema singular denominado MONTADO, que é um hotsopt de biodiversidade (um dos top 25). É um sistema agro-florestal de grande valor ambiental económico e social, que ocorre na parte ocidental da Bacia do Mediterrâneo. Quando bem gerido, o montado tem grande valor para a conservação da biodiversidade e gera importantes serviços do ecossistema. É um travão ao avanço da aridez do deserto, regula o ciclo hidrológico da água, protege a terra contra a erosão, é o habitat de inúmeras espécies em risco (como é o caso do lince ibérico, da águia de bonelli, só para nomear alguns). É um raro exemplo do equilíbrio entre natureza e actividade humana e um paradigma de sustentabilidade. Não é verdade que os ecologistas e ambientalistas condenem a exploração do sobreiro. Muito pelo contrário!

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Marco Antonio F. disse há 2215 dias às 01:51h:

Não tem problemas com rolhas sintéticas ou a tampa de rosca para vinhos que não tem poder de guarda, quanto aqueles que evoluem , ela é indispensável!

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APCOR disse há 2199 dias às 09:33h:

A divulgação de informação sobre a cortiça num meio como o WineTag é uma mais valia para um sítio sobre o vinho, e, por isso, como Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR) agradecemos o artigo publicado. No entanto, pelas mesmas razões, compete-nos clarificar algumas mensagens menos correctas. Em relação à afirmação " a ação de organizações ambientais que condenam a exploração do sobreiro" que, como bem disse a Margarida, é de todo incorrecta. Organizações como a WWF têm-se juntado à APCOR na promoção da cortiça em vários mercados, para além de que têm um projecto denominado ‘Green Heart of Cork’ (mais informação em http://www.wwf.pt/o_que_fazemos/green_heart_of_cork2/ ) que incide sobre a conservação da maior mancha de montado de sobro do mundo e do maior aquífero Ibérico. (continua)

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Winetag B. disse há 2194 dias às 12:34h:

O artigo foi atualizado com as devidas correções e mais esclarecimentos sobre o assunto. Muito obrigado pelas informações, Margarida e APCOR. É um prazer ter a participação de vocês aqui! Vamos divulgar o artigo novamente em nossas redes sociais para que fiquem claras as novas informações. Até porque são dados super interessantes sobre o ecossistema do Sobreiro e saber que o vinho pode ter tal impacto positivo no meio ambiente é muito bom.

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